Thursday, September 07, 2006

A importância de saber ler e escrever!


Se não me escutam, eu falo com o papel e a caneta!!!

Poder vivenciar o dia a dia de uma "grande" cidade, como Goiânia, é uma experiência e um aprendizado incalculável.
Vamos ao caso deste cidadão da foto.
Já estou acostumado a vê-lo pelas ruas do centro passando pelos pontos de ônibus a pedir algo ou simplesmente sentado a conversar com si mesmo...

Quando eu o percebi ali, uma moça tomava de suas mãos a caneta que tinha lhe cedido, pois seu ônibus acabava de chegar. Ele me vendo com uma mochila escolar, logo em seguida, me pediu uma caneta emprestada. Como sempre perco minhas canetas e já me acostumei a carregar um monte, falei que podia ficar com aquela. Ele agradeceu sorrindo e voltou para sua concentração.

Em outras situações, muitas pessoas, não todas, acabam saindo de perto ou olhando com desconfiança quando ele se aproxima.

Mas ele, a meu ver, nem percebe. Continua em seu mundo, sem notar o que se passa ao redor! Ou então está tão acostumado que não se incomoda mais.

Nesta sociedade excludente onde o diferente é separado, seja por meios institucionais ou pelo olhar discriminatório das pessoas, o alento da escrita consegue dar forças para encarar e diminuir este tipo de preconceito.

Como é bom escrever nos momentos de descrença e tristeza. Poder expor no papel, ou no computador, nossas alegrias e vivências.
O poder da escrita não se compara com nada, é uma coisa de dentro da gente que nos ilumina e regenera...
Foi justo o que eu notei quando me deparei com este homem escrevendo. O prazer, a vontade, a determinação estavam escancarados em seus gestos e em seus olhos. O barulho das conversas ou dos ônibus não tiravam sua concentração. Nem o flash da câmera ele percebeu. Nada o tirou daquele momento prazeroso e saciante da escrita...

Fiquei muito curioso para saber o que estava sendo escrito naquelas linhas, mas não quis interrompê-lo. Preferi deixá-lo do jeito que estava, imerso em seu universo.
Depois de quase meia hora meu ônibus chegou, e lá ele continuou sem perceber minha partida... Só pude me despedir mentalmente. [Até mais e obrigado!].

Vasconcelos Neto

Monday, September 04, 2006

Passageiro [remixmodeon]


As notícias cotidianas chegam como um ruído aos meus ouvidos. Ligo uma música. O pequeno suspense das notas graves é suavizado pela melancólica síncope no piano. Esse jogo é levado em crescendo até que suaves acordes de uma guitarra entram em cena favorecendo a vizualização de um ambiente mais intimista. Intimismo em amplas galerias. Cavernas e pubs, ecos da aventura humana na América. O piano volta à cena, as pulsações do baixo podem ser ouvidas por entre as ligeiras frestas. Um silêncio preenchido pela imaginação. O piano cessa. Quem me conduz agora são os sons graves, quase inaudíveis, por isso mesmo delíciosos, do baixo. Esse som grave carrega meu corpo com um roçar, sinto-me, em segundos, leve, flanando entre becos esquecidos de alguma cidade chuvosa onde observo a frágil tristeza dos transeuntes, a violência voraz dos automóveis, a vertigem dos arranha-céus - saboreio morangos. Uma criança com roupas vermelhas me observa. A insistência de alguns acordes servem como mote para o suave retorno. O som do piano, não mais sincopado, ameno, belo, me ampara em seus braços. Retorno com um sabor agridoce em meus lábios.

Levanto-me e saio. Ouço o ruído das notícias descer pela sarjeta das ruas do meu bairro. Sigo subindo a rua [o vento por aqui é mais frio]. A pequena solidão de observar o cotidiano de pessoas desconhecidas me deixa alegre. Continuo o meu caminho por entre as ruas vizinhas e a contente sobriedade das casas pequeno-burguesas, olho de soslaio para a sarjeta e sorrio.

Carlos Eduardo a.k.a contra

Friday, September 01, 2006

Poemas para determinados instantes

No outro dia

A fumaça ainda na garganta.
O álcool ainda na saliva.
A boca quente, os olhos pálidos,
Cheios de lágrimas que não caem.
Tudo dormente. A alma pesa,
Presa ao corpo sujo.
Doem os músculos.
Os cheiros vêm, as cenas passam.
Tudo suspenso no ar.
Tudo deseja não acordar

Térreo
Desencontrada.
Sem chão de estrelas,
nem ponte, nem lona. Despejo.
Perdida em todas as esquinas.
Indigente de si mesmo.
No espelho, o que vê são outras
Chega o frio, enrijecendo o riso.
Cada dia mais rouca.
Na rua, a voz não ecoa.
Sobras do passado não se requentam.
Lorena Maria
(ou quem sabe um pseudônimo?)

Tuesday, August 29, 2006

Tempos em tempo

O compasso do relógio marcava o ritmo da angústia crescente, cada vez mais escura e pesada. Os olhares dispersos pelos cantos do quarto, da sala, do banheiro, pendiam-lhe a cabeça. Lamúrias e lamentos em meio à bagunça das quatro paredes amarronzadas. Nunca tinha lhe parecido tão difícil se arrumar. Pensar que as coisas se encaixariam mais facilmente em meio ao hermetismo medíocre das neuroses. Besteira!

O tempo não passava. Nem toda a diversão do mundo parecia-lhe o bastante. Mas, é isso aí, pensava. Demora, mas, sim, o tempo passa. Passa e traz novas e velhas novidades. Restava-lhe esperar por elas. Só não sabia se o ideal era esperar ou correr atrás. Tanto comodismo... Tudo parecia tão trabalhoso. Ter que traçar estratégias e medir palavras o cansava.

Cada acorde mais agudo numa guitarra qualquer lhe enturvecia a cabeça. Aparecia de volta aquele olhar. Olhos de ressaca? Só se fosse do álcool intenso e cansativo que ingeria. Porra, o mundo inteiro esta lá fora e o cara lá, meio que saboreando, remoendo aquela coisa ruim. O problema é que existem lembranças. Ele travava, sem muita vontade, de apagá-las. Passava um disco pra trás dos outros. Evitava ouvir um ou outro CD. Nas roupas se complicava ainda mais: não sabia como fugir da relação imediata.

Mas nos crepúsculos é que se doia. A idéia do sol indo embora, dos móveis perdendo luz e do mundo ficando cada vez mais silencioso o assombravam. Sempre assombraram. Um cigarro não era remédio suficiente. Sentia que aquilo aumentava o tique-taque implacável do relógio. Não era o instrumento o problema. As engrenagens da máquina iam bem. As dele, não. Mas o tempo passa para todos. Passaria para ele também.

Pedro Palazzo Luccas

Tuesday, August 22, 2006

Exames da Vida

A historieta abaixo foi contada por um amigo de um amigo meu, que eu, por ofício e hábito gostaria de contar. Claro que não citarei nomes, locais e nem datas, tudo isso para resguardar os envolvidos no contado. Deixo claro também minha indignação pela bulas de remédio e pessoas que são muito complicadas de ler e entender respectivamente... abaixo o fato.

Ahhhh!!! Como é bom chegar aqui!!! - Exclamou Badalysson Durão ao dar o primeiro passo em chão firme após 7 horas de uma incômoda viagem de ônibus. Durão, como era conhecido pelas pessoas de sua cidade, sempre desejou morar na Capital. E foi exatamente na Cidade Grande onde o fato ocorreu.

Um certo dia, logo após um almoço tipicamente brasileiro, orelha de porco, buxada, costela, feijão tropeiro e de corda, arroz, mandioca, dobradinha e um limãozinho para dar o gosto, nosso protagonista resolveu tirar uma pestana, como dizia sua tão estimada e falecida avozinha.
Normal, muitas pessoas dormem depois de comer, mas Durão começou a se sentir mal depois de alguns minutos de sono. E assim preocupado, ele seguiu para o hospital!

Meninos chorando, gente queimada, sangue no chão. No corredor dos ambulatório tinha uma mulher que aguardava ansiosamente por sua vez na ultra-sonografia, dizia ela que estava passando roupa para seu marido, quando escorregou e a ponta de um cabide ficou preso na... bem, vocês podem imaginar.

"Badalysson Durão" - chamou o médico com um pouco de dificuldade e com a voz cansada.
-Qual é o seu problema? Perguntou o senhor de vestimenta branca.
-Bem dôtor. Eu tô com uns revestrés na barriga... meus olho tá virando toda hora. Acho que dessa eu num passo.
Numa analise visual, olhando de baixo pra cima, da esquerda para a direita, apalpando a barriga e naquela famosa situação do "trinta e três" com os pulmões cheios de ar, o doutor disse:
-Hum, isso deve ser inflamação estomacal... bem, eu vou passar uns exames para você e no mês que vem você retorna! Finalizou morbidamente o médico.

E para casa Badalysson foi. No outro dia às cinco da manhã, Durão esperava ansiosamente pela abertura do laboratório. Tinha maquinado a noite toda quais exames teria que fazer, o que iriam fazer com ele, o que teriam que colocar nele... até sonhou com a sua vó, falando para que ficasse quieto enquanto aquele "tiozinho" da farmácia (não só no interior, mas em vários lugares) , que às vezes tem o antigo segundo grau, enfia uma agulha em seu braço ( neste caso, pois sempre teve vergonha de mostrar suas nádegas publicamente).

Ele entregou o pedido de exame para a moça, que sorridentemente analisou o conteúdo. Fez algumas perguntas, procedimento padrão do laboratório, digitou outras coisas no computador e com firmeza no olhar informou a Durão:

-Pegue este recipiente para que o senhor possa colher o material!
-Colher o material? Indagou.
-Sim, feche bem e guarde na geladeira, pelo menor tempo possível!
-Muito obrigado.

Durão saiu do laboratório repetindo o pedido da secretário do laboratório. "Colher o material, colher o material, colher o material...". Mesmo com as malditas músicas do ônibus, que geralmente por serem ruins grudam no pensamento, Badalysson não se esqueceu...

"Colher o material".

Chegando em casa tirou os sapatos e sentou-se na cama. Abriu a sacolinha e olhou para o pequeno "pote", e só neste momento ele se deu conta, "Que porra é essa de material?".
Rapidamente voltou ao laboratório que ficava a uns 40 minutos de sua casa, isso se o trânsito estivesse livre, em caso de engarrafamento poderia levar por volta de 1 hora e meia. Entrou meio ofegante na sala de entrada, procurou a moça que o atendera, que por sinal tinha saído para comer (horário de almoço). Pacientemente ele esperou por 1 hora, talvez mais um pouco.
Assim que a senhorita chegou, ele educamente perguntou:

- Oi tive aqui de manhã, para pedir uns exame e não sei se a senhora lembra de mim... - ela balançou positivamente a cabeça - Pois é, cê disse que era pra eu colher o material, mas o que é material?!
- É colher fezes meus senhor! Respondeu a secretária com uma feição risonha.
- Ahhhhhhh!!! - Exclamou bem alto. - Brigado.

No caminho a mesma coisa. Ouvindo musicas ruins no ônibus. Pessoas se esfregando e compartilhando o odor e suor dentro do transporte coletivo, e nosso protagonista firme nas fezes. Não parava de pensar, "colher fezes, colher fezes...".

Quarenta minutos depois chegava novamente em casa. Cansado só pensava em comer alguma coisa, já que ninguém é de ferro. Depois de comer um feijão-com-arroz básico, se voltou ao seu exame, e entrou em mais um dilema:

-CARALHOOOO!! O que é fezes??? Gritou bem alto.

Neste momento Durão quase foi acometido por uma indigestão. Já não ia muito bem do estômago, com mais essa agora por pouco foi para o saco. A única coisa a se fazer, pensava ele, era ir ao laboratório novamente. Já estava grilado, pois teria que enfrentar o busão e tudo aquilo novamente, e o mais engraçado era ter que fazer isso na hora do "rush" novamente...

Depois de ter enfrentado tudo de novo, mais uma vez chega no laboratório. Com cuidado ele esperou a secretária atender a todos que estavam na sua frente. Chegou a pegar uma senha para ser atendido. Quando chamaram seu número, cautelosamente ele se aproximou e já foi se explicando para a moça, que ao vê-lo fez aquela cara (de novo?):

- Olha moça, desculpa eu, mas é que sou do interior, então eu num sei de algumas coisas. Num queria incomodar, mas o que é fezes??? Perguntou inocentemente Durão.

Surpresa e com um olhar de raiva (um daqueles que você sabe o quanto a pessoa ganha pouco para te olhar assim) ela respondeu enfaticamente:

-É BOSTA! MERDA...

Com espanto e confuso Badalysson retrucou:

-Calma moça, também não precisa me ofender xingando desse jeito... Mas me responde ai, o que é FEZES???

Renato Cirino

Tuesday, August 15, 2006

o que sobrou...

Goiânia – Salvador. Retirantes no sentido contrário na caranga branca do tio Ari. Seriam estudantes indo para um Encontro de Comunicação, não fosse o espírito “viagem com a galera da facu”. A intenção faz toda a diferença. Mas fomos. Um grupinho um tanto quanto heterogêneo, abarcando desde alguns supostos jornalistas até uma trupe de calouras que vamos combinar. Esquece. Logo na ida, a desarmonia musical já causou algumas divergências. Confesso que meu ouvido não é capaz de aturar “fuca na butuca” nem no pior estado de embriaguez. Mas, entrou na chuva... E como se não bastasse, as pessoas com um pouco mais de senso não levaram música suficiente para as vinte e oito horas de chão. Dá-lhe Ray Charles e Jack Johnson. Sobrevivemos e por fim, chegamos à universidade, situada a menos de cem metros da praia. Fomos assistir ao nascer do sol em cima de uma pedra da Barra. Depois desse episódio comecei a ser outra pessoa. E já no primeiro dia do evento, a organização facilitou nossa desistência. Então nos restou o duro ofício de conhecer o que a Bahia ainda tem.

Nesse tipo de viagem alguns momentos fazem valer a pena todo sacrifício. Valem a penúria da convivência em grupo (pelo bem coletivo e pelo mal próprio). Valem o constrangimento da intimidade forçada, do banho quase unisex, os roncos, valem a vontade de mijar ao menos um dia sentada e defecar em algum lugar que não pareça banheiro químico. Valem aquela fila de restaurante popular na hora do almoço, valem tomar um café que mais parece feijão servido com batata doce.

São momentos que compensam tudo, como encarar aquela imensidão desconcertante que é o mar, olhar seu encontro com o céu e não saber nem pensar nada. Momentos como topar com uma batucada baiana nas ruas do Pelourinho, ver de perto aquelas mãos que tocam o repique e o timbau num prazer que o corpo quer a qualquer custo e daí, não conseguir recusar os passos. Entrar por acaso num espaço dançante e testemunhar um bolero tocado ao vivo para os senhores e senhoras se acabarem de dançar. Melhor ainda: estar só com mais três amigos...ê sorte! Experimentar aquelas doses de pingas exóticas e afrodisíacas. Andar pelas ruas à toinha, e achar um café todo charmoso com uma decoração cabulosa e um capuccino baratinho. Momentos de conversas, de restauração de amizade que havia se tornado rotina.

Embora o Elevador Lacerda tenha decepcionado um pouco, o episódio do Gatorade foi impagável. É que nosso companheiro não sabia que os pedintes de Salvador têm uma maneira educada de pedir as coisas. “Me dá um gole, tio?” fica melhor que pedir logo tudo. Mas nosso companheiro levou a sério a sutileza do menino. Entregou a garrafa, esperando só o gole. Tinha acabado de comprar. O menino pegou a garrafa, virou as costas e saiu tomando de glut glut, enquanto a gente assistia a cena, vendo nosso amigo esperando não sei o quê, com uma cara de mané passado para trás por um moleque de pouco mais de 1m.

Alguns não viram. Ainda bem. Sorte minha e dos quatro seres chapados que estavam comigo. Bebi tanto que encontrei até cabimento em dar uma estrela de vestido, no meio da chuva, na pista de dança. Realiza a cena desta pessoa neste gesto olímpico. É, eu também não consegui.

Outro momento memorável foi nosso desabafo coletivo no Bar do Paredão. Haja saco para aturar certas coisas. Quem não estava ou não ficou até o final pode se preocupar, porque com certeza seu nome entrou na roda das línguas felinas. Fizemos uma espécie de Big Brother de verão e colocamos na mesa quem nós achávamos que eram dispensáveis no coletivo, seja pela falta de interação, seja pelo excesso de participação. Incrível eram os argumentos e a capacidade que temos de dissimular o que pensamos das pessoas. Também não foi só veneno, fizemos elogios às pessoas que mereciam.

Afinal, nessas viagens, a presença de algumas pessoas é de suma importância. Não teria a mesma graça sem a presença espontânea de Zetinha, o terror dos moradores de Salvador. Ela tornou os ônibus coletivos um verdadeiro trio elétrico com batuque e tudo. Imagine você entrar no buzão, numa bruta segunda feira, depois do expediente e deparar com um singelo grupo de trinta pessoas cantando e dançando Tchaco, eu tô em cima eu tô em baixo, Piririm pom pom, piririm pom pom é Goiás no Enecom. Ou viajar ao lado de um fanho que vai cantando a musiquinha da pamonha vai pamonha, vai cural. É no mínimo engraçado. Melhor que isso só pegar um taxista que, para lá de meia noite, arruma ânimo para curtir um mambo em ritmo de batuque. E enquanto o som do carro mandava ver no volare, ôô, cantare, ôôôô o motorista se divertia no zigue zague e nas ultrapassagens. Atrás, outro grupo viajava ao som do badalo do negão. Deu até para criar um filme erótico de Emanuelle em Salvador com o título: Emanuelle e o badalo do negão. Criação do João, outra pessoa que tem umas tiradas muito bem vindas. A da fotografia foi a melhor. Não vou citar um por um, mas valeu aqueles que fizeram essa saga de retirantes compensar. Ah, não podia esquecer do último instante da viagem. A gente queria de verdade ver o oco, mas suspeito que as pessoas não entenderam o gesto. De quaquer modo, essa é a minha galera!!!
lorena maria

Thursday, August 03, 2006

Molho de Chaves





"A morte é tudo que nos apreende. Manoel de Barros é tudo que nos escapa. "
Wertem









O encardido confortável da parede. Uma goteira silenciosa. Seus brincos amassados. Mistérios que não se mordem com caninos. Uma tosse seca no meio da noite...
Não é preciso tanto amor para não se esquecer das migalhas. E mesmo sem abrir todas as portas - sem nunca abrir todas as portas - você não se desfaz do molho de chaves, pesando nos bolsos.

João Gabriel

Tuesday, July 04, 2006

Se Me Deixam Falar...

Mulher, pobre, descendente de indígenas, esposa de um minerador, tudo isso durante a ditadura militar no interior da Bolívia. É disso que trata o livro “Se Me Deixam Falar...”, o título faz jus à falta de liberdade de expressão e repressão sofrida pela personagem principal, Domitila, a esposa de um minerador boliviano. Claro que acima de Domitila, os verdadeiros personagens principais são a injustiça, a repressão e força transmitida pela história, as lutas e busca por ideais e por uma vida melhor e mais digna.

A história se passa nos altiplanos bolivianos, aonde os mineradores recebiam uma casa de dois cômodos para morar com a família, independente de quantas pessoas fossem. Já começa aí a injustiça com os trabalhadores que movimentam a economia do país, que tem na mineração uma das suas principais riquezas. Isso antes do regime militar, com a entrada dos militares a situação muda pra pior, pois qualquer movimento de indignação por parte dos trabalhadores passou a ser reprimido com violência brutal e desnecessária.

O que mais impressiona é a história de vida da personagem, desde a infância difícil (foi criada pelo pai, um trabalhador com ideais de respeito, direitos e força de vontade), as várias situações que sofreu na ditadura militar e ainda a vontade de contar sua história para que todos saibam que isso acontece e não só na Bolívia, mas em todos os lugares. Domitila mostra uma força sobrenatural que a faz resistir desde violência física à pressão psicológica, mas não a faz abandonar seus ideais e suas qualidades, e acima de tudo faz com que ela lute em nome de todos que passaram pelas mesmas coisas que ela. De dona-de-casa a representante internacional das mulheres bolivianas, ela passou por coisas que ninguém gostaria de passar e tudo isso movida por seus ideais de justiça, dignidade, respeito ao trabalhador, às mulheres e acima de tudo ao ser humano e sua liberdade, de pensar, se expressar e trabalhar.

Com certeza, muitas pessoas não imaginam as atrocidades pela qual milhões de seres humanos passam por este mundo, e este é apenas mais um caso, que muitas vezes passam despercebidos aos olhos da imprensa e da sociedade, cada vez menos preocupada com o ser humano e sim com seu egoísmo e futilidades. Moema Viezzer soube captar a opinião de uma pessoa extraordinária e não se intrometeu, apenas relatou o que ouviu e em nada interferiu na história. Isso mostra a importância e força que podemos ter, qualquer um, independente de escolaridade, etnia, religião ou classe (condição) social. Alem disso a linguagem do livro é bem simples e fácil, permitindo que qualquer pessoa possa ler e aprender com este relato pessoal, mas que transpassa fronteiras e diferentes realidades.

Além de morarem em pequenas casas, os mineradores compravam seu alimento e outros utensílios da própria empresa pra qual trabalhavam, se submetendo a gastar quase todo seu salário com a empresa. As doenças entre os trabalhadores eram comuns, e a principal era o “mal da mina”, doença respiratória causada pela falta de equipamento de proteção adequado e pelo excesso de poeira. A carga horária excessiva deixava os trabalhadores mais fracos e vulneráveis, muitas vezes trabalhadores não tinham tempo de se alimentar da maneira ideal.

Como os maridos ficavam quase o dia inteiro fora, as mulheres acabavam sendo apenas donas-de-casa, responsáveis pelos filhos e pela casa, ficando assim sem tempo para trabalhar. Com a falta de tempo entre os homens, as esposas se uniram em um sindicato das donas-de-casa, o que permitiu a elas discutirem e repensar a situação de exploração vivida, partindo muitas vezes desse sindicato, movimentos contra a empresa.

Outra luta que ela levantava era pela valorização da mulher, o tempo todo ela deixa claro que a igualdade entre homem e mulher poderia acabar com muitos problemas da humanidade. Isso ela não aprendeu através de estudo, mas com a vida e soube perceber através de seu caso em particular, que era uma questão global. Domitila passou a infância ajudando a cuidar de suas irmãs, ficando às vezes sem tempo para estudar, então não teve uma formação das melhores na escola. Sua vivência e também muitos dos ideais de seu pai a permitiram questionar e compreender a exploração pela qual passavam os trabalhadores. É impressionante, pois até ela mesma fala que não conhecia o comunismo, mas seus ideais se aproximavam demais desta linha de pensamento, as idéias de igualdade e contrárias a exploração do homem pelo homem sempre a acompanharam, desde sempre.

Ao vivenciar tal situação na pele, não conseguia ficar parada nem calada, falava o que pensava sobre o assunto, protestava, manifestava, lutava mesmo pelos seus ideais de uma vida digna e sem exploração. Infelizmente essa luta a fez passar pelos piores pesadelos, foi presa, agredida, espancada, perdeu um filho ao ser espancada na cadeia, passou por problemas psicológicos e mesmo assim não desistiu da luta. Foi convidada a representar as mulheres dos mineiros bolivianos na ONU (Organização das Nações Unidas) e compareceu com um depoimento que deixou clara a situação que ocorria na Bolívia.

Sob suspeita de comunismo, passou a ser procurada pelo governo ditatorial e teve que fugir diversas vezes, mas sem nunca abandonar a causa e seus ideais. Muitas pessoas a aconselharam a parar, inclusive seu marido, porém sua força de vontade era maior do que seu medo, e sua indignação poderia vencer qualquer arma. Acusações absurdas foram feitas em seu nome, como, por exemplo, a de que ela recebia dinheiro de potências comunistas (como Cuba, China ou União Soviética) para armar pessoas e incentivá-las a uma luta armada. Domitila era uma pessoa pacífica e em momento algum recebeu qualquer dinheiro para incentivar uma luta armada, pelo contrário, passou por todo tipo de dificuldade por ser pobre e às vezes não tinha dinheiro nem para comprar carne para se alimentar.

Ao final do livro, em uma entrevista que Domitila cedeu a Moema Viezzer, logo após todo o ocorrido, a dona-de-casa que liderou e ajudou tantas pessoas, reafirma seus pensamentos e fala da importância das pessoas terem conhecimento do que ocorria naquele lugar específico da Bolívia, mas que com certeza acontece em vários outros lugares.

Domitila também critica a distância entre as pessoas que detêm o conhecimento, como universitários, e as pessoas que não tiveram oportunidade de se informarem. Ela diz que existe uma grande falha de comunicação entre esses dois extremos e que isso causa um grande atraso em qualquer sociedade. É importante unir o conhecimento teórico com a prática, além de unir as próprias pessoas que fazem parte dessa mesma sociedade.

Não se pode deixar de perceber também a luta pela libertação das mulheres que é claramente retratada na história e nas convicções de Domitila. Além de uma luta trabalhadora, a luta da igualdade entre os sexos, mesmo não sendo o principal assunto do livro, é de extrema importância compreender que se trata também deste tema. “Se Me Deixam Falar...” trata basicamente disto, luta trabalhadora, liberdades individuais, luta por seus ideais (desde que sejam bons ideais), e a busca de igualdade entre os sexos.

É fundamental compreender e fazer essa ligação entre os temas, pois a própria Domitila deixa explícita a importância da mulher na sociedade, na família e no trabalho. O que seria dos trabalhadores (nesse caso) sem suas mulheres para cuidarem da casa e da comida? Não existe superioridade entre os sexos, e uma mulher com pouco estudo mostra isso da melhor forma, porém passando pelas piores coisas que se pode passar (humilhação, desrespeito, violência física e psicológica). E muitas pessoas com conhecimento e diplomas ainda conseguem pensar numa superioridade entre qualquer dos sexos, principalmente homens.

Domitila mostra que enquanto houver desigualdade social, exploração e desigualdade entre homem e mulher, as coisas não poderão avançar e muitas pessoas vão sofrer, tanto quanto ela, ou até mais. A dignidade engrandece as pessoas, e conseqüentemente a sociedade, e a melhor maneira de se alcançar a dignidade é através do trabalho, do bom senso e se sentindo valorizado, seja qual for seu sexo e sua condição, ou classe social.

Gil Vieira Di Cavalcanti

Tuesday, June 20, 2006

Brasil - sil - sil -sil


Acordo cedo numa manhã de segunda-feira e saio para uma caminhada que seria tranquila não fosse uma trôpega criatura embandeirada dos pés à cabeça cruzar meu caminho, um estouro de foguete no horizonte e a vinheta global - três letras que ecoam nas esquinas como um lamento oco no deserto...


O futebol tem dessas coisas, sintetiza a vontade e a perdição de uma idéia que não foi. Se chegou a ser, já passou. O pós-brasil de Lula ainda tenta reascender aquela "vontade de ser" tão propalada por militares e socialistas no século passado. Hoje só restam o riso histriônico de bêbados e a "brasilidade" forjada em reuniões de marketeiros em algum restaurante francês em São Paulo ou Brasília. Nada sério.


O caso é que em tempos de copa do mundo o Brasil se levanta do sofá no domingo e sai para se mostrar nas ruas numa abobalhada anarquia verde-amarela, com direito a comentários instigantes de Galvão Bueno e o já célebre "a regra é clara, Galvão". Sim, a regra é clara: ano de Copa do Mundo o Brasil se re-faz, na alegria de um gol e nas urnas. De quatro em quatro anos recolhemos os cacos de um antigo monumento e refazemos uma idéia que retiramos da tradição forjada em meio a uma ditadura populista e uma ditadura militar. Naqueles tempos em que "[n]a mão direita [havia] uma roseira/ autenticando a eterna primeira" enquanto "no pulso esquerdo um bang-bang/[que] em suas veias correm muito pouco sangue/ mas seu coração balança[va] a um samba de/ tamborim", éramos um corpo e não sabíamos (ou sabíamos que éramos um corpo, mas fingíamos que não, tudo em prol do vir-a-ser). Hoje nos alegramos em recolher os estilhaços daquele corpo e alegremente montarmos um Brasil como um vitral barroco.

A bandeira verde-amarela, o hino, o personalismo, a miscigenação, a cordialidade, a alegria, a corrupção etc etc etc. todos os elementos empilhados em ruas, esquinas, bares, clubes, residências, puteiros, repartições públicas, favelas, bancos, shoppings, condomínios fechados, jornais, revistas, Tvs, rádios, etc etc etc. O Brasil ali para todo mundo ver, tocar e sentir. O Brasil que foi e que não foi, lado a lado, etéreo e sintetizado no toque na bola, na gordura de Ronaldo, no estouro do foguete, nas urnas... O Brasil que é, que foi e que será, eterno e fragmentado, perdido entre o vir-a-ser e o "já foi".


O Brasil tem dessas coisas... tem inclusive eu que escrevo e voto como um dia joguei futebol: com duas pernas esquerdas (reparem bem, não sou canhoto)!



Carlos Eduardo Pinheiro

Saturday, June 17, 2006

zzzzzzzz



Eu prometo que até o final do ano eu acordo...

Sunday, June 04, 2006

Haja saco!

Pelo jeito vou ter que começar uma saga blogueriana. Não bastasse a gente ter que ler todo tipo de bobagem, e eu não me escluo, ainda temos que aturar spam em comentários de blog. "Look nice. Congratulations, blá blá blá". E ainda vem um link esperto ">>", provavelmente com um vírus mais esperto ainda.

O tal do blog é um espaço muito bom para ser deteriorado e/ou mau utilizado desse jeito...

Thursday, June 01, 2006

Afronto

Espantoso parar uma cidade para um encontro “total black”. Estranho os melhores hotéis e restaurantes reservados para as comunidades negras. O palco, as ruas, todos tinham “donos”. Mas estranho mesmo é que isso ainda seja espantoso para muitos. Muitos que insistem em negar que o Brasil é negro. Somos todos pretos mesmo, uma herança que se estende a tudo, nossa história, nossos “de comer”, nossas cores, a música, nossa religião fantasiosa, rica, nossa língua. Reverenciemos a cultura afro por ter nos livrado da insipidez.

Bem, não era para começar tão político assim. É que a dureza da hipocrisia nos leva a discursar. O tal do racismo velado existe mesmo e é foda. Aquela história de tornar o respeito uma questão de caridade. Ou então fingir que está tudo uma tranqüilidade só. Tudo isso é muita sacanagem. Então vem um momento como esse, um Encontro Afro (um dos poucos eventos no Brasil dedicado apenas à temática afro), que vai de encontro a tudo isso, invertendo toda a “ordem”, questionando a negligência, ressaltando o orgulho, a beleza....

Olhando os negros, seus olhos têm uma força, uma postura. Sua maneira de falar, seus cabelos, roupas, um estilo tão impetuoso. Falavam da suas lutas com sobriedade, veemência. Sorriam muito. Enquanto os tambores de samba de roda batucavam nas ruas, nas salas havia uma ou outra prosa científica, noutro canto repicava o som do berimbau ou um break hip hop. Era de dar nó na garganta. E ali, na cidade de Goiás Velho, toda construída por braços de escravos. Era quase que um culto aos ancestrais.

Pensava em como toda essa gente resiste, o quanto essa gente produz relicários que seríamos incapazes de oferecer. Estão muito longe de serem só “os negros da ginga, da malevolência, do corpo dourado”. Nos dão muito mais que isso. A vontade era de tomar um banho de piche e virar preto também. Por quê? Não, não é porque “tá na moda” não. Simplesmente não há outra maneira de penetrarmos nesse mundo sem enegrecer.

Ah, só registrando foi muito bonito a roda de Candomblé feita para receber o governador do estado no evento. No centro da roda, Ode, um dos orixás do Candomblé fazia uma dança com facas. Rodopia, ginga, até o momento que sai da roda e se põe a dançar no meio da multidão. Com as facas. Cruza uma e outra, roda, corre de um lado para o outro empunhando as tais facas, grandes, afiadas (porque vieram mesmo da cozinha) e de repente pára em frente ao ilustre convidado, e continua dançando, cruzando as facas próximo ao rosto rechonchudo do governador. Ele sorri, sem graça, tenta acompanhar o ritmo da música, mas alguma coisa me diz que ele não estava muito à vontade. Pena. A festa estava realmente bacana.

Lorena Maria e Silva