Wednesday, November 29, 2006

Raicai Drinks


Mando aí alguns raicais com temáticas de butecos. A idéia tá aberta pra quem também se sentir inspirado por esse ambiente.




Encruzilhada.
Naipe de coração
na carta errada


Fumaça do primeiro trago,
desejos
que não falo


Torresmo.
O filé aos cães
a gordura ao beiço


Dose.
Mais uma
e serão doze


Bituca.
A alma é grande,
a vida é curta


Conversa de bar.
Só não escuto
a patroa chamar


Minha flor de lapela,
ao final da noite
nem mais uma pétala


Meu olho já envenenado - sinto muito!
Guarde seus beijos
no guardanapo

Canções de
embriaguez:
Todo mundo tem sua vez!

Nas mesas,
Serve-se de bebida
à boa vida

Espuma enfeita o copo
Bebo gelado
seu corpo

Entre o sal e
o paliteiro
Ficam presos os desejos



João Gabriel de Freitas

Tuesday, November 28, 2006

Amor de criança

A semelhança das duas, denunciava o parentesco. A mais velha parecia ter 15 anos. Sentou-se no ônibus, com a bebê no colo, naqueles bancos em que ficamos de costas para o movimento natural, assentos que na maioria das vezes são evitados por tonteira ou superstição, mas aquela menina não se importava. Encostou a testa no vidro e olhou pela janela embaçada, como se estivesse mais interessada no passado, ou ainda, como se estivesse de costas para o futuro ou andando mesmo, de ré.
Junto a seus pés ficava uma mala velha, como se fosse um cão velho, cheia de panos de prato ordinários, que logo foi chutada sem querer, ou por ignorância mesmo, por um homem gordo de rosto quadrado. Assim ela despertou e viu que a pequena se lambuzava toda com um pirulito barato comprado no terminal. Era como se ela brincasse de boneca com a pequena no colo. O cuidado de uma pela outra parecia uma brincadeira de irmã até que ouvi; “não minha filha, deixa mamãe cuidar disso”.

Wertem Nunes

A urucubaca vingou


Depois de ler esse tão sincero desabafo, sobre jovens garotos inconseqüentes e uma revista eletrônica, não posso mais guardar o que sei. Para todo mal existe uma culpa, que é a maneira de consolar e explicar quando algo não dá certo.
Quando tudo começou, as tais reuniões secretas, os esboços, o falatório, eles se esqueceram de um detalhe. Um detalhe besta, banal, sem importância. Um detalhe, pois, que lhes traria a ruína. Não por maldade ou por machismo ou por ignorância, mas porque homem não é detalhista. E a sensibilidade deles é outra. Claro que formar um clube de escritores é o sonho de todo rapaz jornalista e só essa vontade moveria (como moveu) muitas palhas. Mas, de repente, não mais de repente, o quesito faltante começou a pesar.
Primeiro porque elas, mais do que ninguém, sabem cobrar, gostam de hora marcada e tudo, e talvez isso agilizaria o processo. Depois porque clamam por atenção, por se sentirem parte ativa (e não meras colaboradoras) da idéia. Casos não se sintam assim, partem para a vingança (lembram do vudu do Cheiro do Ralo? Então.) Sem contar que elas possuem o charme intrínseco à voz e aos gestos que é capaz de convencer qualquer dono de supermercado a patrocinar uma página na internet. E por fim, porque o que seria dos escritores sem suas musas inspiradoras????
Gente, sem querer entrar na intimidade de ninguém ou revelar os surtos de solidão que ora pairam sobre vocês, o que falta (e faltou) ao projeto SÃO MULHERES!
Lorena Maria (a única e abusada criatura do sexo feminino que enfia suas coisas nesse espaço aqui)

Joselitismo:o mal do século


(sobre a experiência surreal com Bnegão)

Cedo, vou atrás dos caras. Bernardo, o Bnegão e Fábio, o produtor. Meio traumatizada com esse negócio de acordar as pessoas nos hotéis, peço que interfonem no quarto. Em pouco tempo descem os dois. Me vem a memória a fala de um amigo “ você sabe como são esses maconheiros. Vão atrasar”. E quase inconscientemente fixo no olho do negão. Não dá pra ver muita coisa por causa dos óculos retrô que ele usa. Realmente é bem largão, e as mãos são bem gordinhas. A indumentária é simples, mas o balanço quando caminha é muito próprio. Tento disfarçar a incontrolável sensação que é estar tão próxima a um artista que você curte. Fica de boa. Boca fechada. Aproximo do produtor que é mais franzino e parece menos ofensivo. O silêncio não é o meu forte e por sorte também não é o deles. Vamos falando sobre o show de Brasília, o festival daqui, ele pede para sintonizar na rádio que tocava ô simpático, funk do filme Quase dois irmãos que eu assisti umas vinte vezes, solta uns comentários bem humorados e o clima vai ficando ameno.
O programa é muito sério para uma ocasião dessas. Não supera muito minhas expectativas (mesmo porque elas são sempre maiores), mas penso que já valeu. Fico tentando decodificar as falas sobre música independente, a história da Dança do patinho, sua profecia de que a humanidade está sofrendo da doença da joselitagem, um non sense coletivo, suas piadinhas sobre músicos top top, os palavrões, as gírias. Percebo um enorme esforço dele para organizar o raciocínio, conter a onda que é intrínseca à sua pessoa. No ar, reclama que seu estômago está roncando. Parece à vontade.
Da ilha recebo um telefonema do diretor da TV(que é fã do cara) convidando para um almoço. Como ele fala muito rápido, empolgado, não entendo se ele quer fazer uma graça ou se é só para forçar amizade mesmo. Presumo que sejam as duas coisas. Por desencargo de consciência, dou um toque no produtor, “é, o cara chamou vocês para almoçar numa churrascaria aqui perto, mas sei que vocês têm que voltar para o hotel”. “Mas é patrocinado? Porque acho melhor almoçarmos por aqui”. Assumo que não entendi se ele iria bancar. Deixamos de lado a idéia, só que na espera pelo carro, a conversa foi ficando boa, pedindo uma cerveja e acabo voltando ao lance do almoço. Para nossa alegria, descubro que o “chefe” queria pagar a farra pra todo mundo. Fomos.
Bnegão começa a história do show que fez com Tony Allen, do lance de tocarem juntos. Ele realmente fala muita gíria, mas engraçado que não é chato. Falou bastante muito. Descobri que, como eu, ele não é bom com endereços e por falar nisso, nos perdemos e daí começo a me arrepender em levar os dois para esse almoço. O “chefe” do outro lado parece alto e quando nos vê chegando, começa o escândalo. “ Aaaaarh, porra, como vocês não me viram. E aí Bnegão?! Aaaaaarrhhh! Vamo descer. Como vai essa força, BÊ? Arhhhhhhh”. BÊ???? Me arrependo. O cara estava completamente embebido no álcool, de boca mole e frases dissolvidas como bem disse o Bnegão. Falava desconexamente, sobre um tal programa “bem Goiás” e da sua viagem ao Rio, e da sua história musical e disso e daquilo. De repente, implicou com o fato do ídolo não comer carne e não tomar cerveja. Vemos ali, personificada, a profecia de Bnegão.
Ele e seu fiel escudeiro ( que a essa altura já havia recebido o codinome de Fabão) se acabavam de rir, enquanto eu e uma amiga nos divertíamos com aquela situação hilária: um almoço, num muquifo, em companhia de um figurão encachaçado e os dois visitantes ilustres. Antes que a coisa piorasse, pedi um carro para nos levar ao hotel. Por fim, numa esquina do centrão de Goiânia, depois de um abraço demorado e sincero de despedida, pude perceber que tínhamos proporcionado aos caras uma fuga da rotina, um momento original que já vai virar história entre as outras do Bnegão. Tomara.
lorena maria

Monday, November 27, 2006

O silêncio das idéias

Num desses rompantes característicos da juventude em defloramento intelectual, Samir reuniu os amigos e decretou: vamos criar um site! Um site de jornalismo em que poderemos escrever sobre cultura, cinema, política e os assuntos aqui da faculdade. Sorrisos brotaram dos rostos dos comparsas. É uma grande idéia. Sim, quem sabe um dia poderemos até ganhar dinheiro com isso, arranjar alguns patrocinadores, interferir nas publicações locais, envolver outras faculdades, em suma, dominar o mundo, praguejava um dos elementos do staff, num misto de pragmatismo e sonho.

A reunião informal se prolongou por mais tempo que esperavam, ali, num dos quadrados de concreto da faculdade. Colunas começaram a ser definidas: “posso escrever sobre isso!”, “vou falar daquilo!”, “não, peraê, cinema e literatura todo mundo quer, né?!” Tá, tá, a gente faz um cronograma de publicação, podemos colocar mais de um texto sobre um mesmo filme, porque não?. E podemos falar de política na segunda, da faculdade na terça, do cinema na quarta, da literatura na quinta, publicar uns contos na sexta e ainda preparar textos especiais sobre grandes personalidades para os finais de semana.

As idéias pulsavam das seis, oito cabeças ali presentes. Sentiam-se geniais só de querer.

Samir servia como um mediador. Acatava uma sugestão. Passava outra pelo sufrágio do grupo. Ponderava opiniões e batia o martelo nos momentos de conflito - “ordem nessa putaria!”. Exercia de maneira informal o papel de editor da futura publicação e já vislumbrava sua fotinha, no departamento “quem somos”, com o rosto sério e o e a cabeça apoiada pelo braço na mesa, com o punho fechado ao queixo, no melhor modelito grandes jornalistas da história.
“Tá, mas e o nome?”, disse um. Dilema. Mil e uma idéias. Minutos tensos de discussão até que chegaram a uma conclusão. Massa!

Agora vamos lá, junta a grana para pagar o provedor, afinal, queremos um site. “Pega logo o de maior espaço, a parada vai ser multimídia, com links interligando imagens, entrevistas em áudio, e logo, logo, vídeos também”, exaltava-se Samir e eriçava os sofridos pelos da cabeça. “Põe nosso amigo da escola pra trabalhar, aí, meu. Enquanto isso vamos escrevendo. Adiantar uns textos, umas crônicas“. Tínhamos pressa de algo que não entendíamos como isso ainda não havia sido feito.

Passa-se uma semana da reunião orgasmática. “Tamo enrolado em galera, vamos botar gás nisso“. De um lado os preços e possibilidades. De outro os primeiros esboços do grande valor da rapaziada: o conteúdo das cabecinhas, quase todas cheias de pelo.

Passam-se mais semanas, passam-se meses. Pobre amigo da escola, ainda hoje tem dividas a receber do site que nunca chegou a entrar no ar. Aos poucos, o assunto passou a ser comentado apenas à boca miúda, vez ou outra alguém retomava a discussão, em rompantes de revolta. Mas nada se comparava à cobrança dos conhecidos, devido à propaganda insistente, mesmo com o projeto apenas flutuando pelas cabeças: “E aquela parada lá de vocêis? Sai ou não sai?”, não cansavam de perguntar. O projeto morreu pela boca. Um ou dois textos. Quatro ou cinco reuniões aqui e acolá. Algumas cervejas e bloqueios intelectuais. “Tô travado!”, dispara Samir. Baque na galera. Seria o fim?

Projetos pessoais foram levados adiante e por fim uma nova confluência: vamos fazer um blog, porra! Vamos parar de falar e criar essa merda logo. Podemos fazer isso, aquilo, aquilo outra e ainda manter isso aqui. De novo, pouco das idéias sobraram. O blog foi criado e ainda a passos lentos.

Uma das políticas iniciais, de ter colaboradores, transformou-se numa diretriz: sem eles, pouco haveria.

Samir, por sua vez, nunca escreveu um texto. Ou mesmo os comentou.

Pedro Palazzo Luccas
João Gabriel de Freitas

Thursday, November 23, 2006

Jesus mata


Mais um malandrão histórico com o pé na cova. Desde segunda-feira o ator Jece Valadão permanece internado numa UTI em estado grave, devido uma insuficiência respiratória.

Tal fato passa a confirmar o grau de periculosidade em ações no final da vida, quando neguim passa a ver Jesus, mesmo tendo conduzido todo o resto de sua vida no grau máximo de desregramento. Muitas vezes o chamado por Jesus acaba sendo tão forte e comovente, que Ele acaba atendendo antes do esperado.

Caso desses bem ilustrativo aconteceu no começo de 2005. Ninguém mais do que Bezerra da Silva decidiu se converter e virar evangélico. Bezerra tentou emplacar e salvar a própria pele dando uma de malandro de Deus e o seu último trabalho, já em pré-produção e que felizmente não chegou a ser lançado, abordaria a vida com boas mensagens além conter alguns sambas religiosos. Deu no que deu, e o malandro acabou virando erva mais cedo que o esperado.

Jece Valadão seguiu na mesma linha. Foi um dos grandes atores da época áurea do cinema brasileiro. Conseguiu imprimir um estilo próprio, o "Valadão Style", quando o assunto era deflorar as cocotas que viriam a ser as musas sagradas da TV brasileira. Mas não só de putaria viveu Jece Valadão, o cara também fez brotar gemas rococós em filmes policialescos. Um verdadeiro Charles Bronson que, ao invés de matar punks para vingar a esposa asassinada, descarregava sua raiva em cima dos broncos que não possuiam a sutileza na hora do trato de uma rapariga.

Em plena produção da Boca do Lixo, de onde surgiram comedores do naipe de Davi Cardoso, Nuno Leal Maia e Paulo César "eu te amo, porra!" Pereio; Valadão conseguiu se firmar na alcunha do MAIOR CAFAJESTE DO CINEMA NACIONAL.

Nos últimos anos, com mais de sententa pesando nas costas e já vislumbrando o rabo do capeta, Jece resolveu atacar de pastor. Abraçou a bíblia fervorosamente e já havia autorizado a produção de uma película retratando toda sua conversão. Novamente a providência divina interviu antes, e o clamor de Jece parece ter repercutidonas esferas divinas, que agora o querem para ser um dos seus.

João Gabriel de Freitas

Monday, November 13, 2006

Poeminha Pruma Época de Extrema Exarcebação Sexual

Eu também gosto
de permissividade,
Garotada.
Mas, aqui entre nós,
E na alminha
Não vai nada?
Millôr Fernandes

Irônico que tenha visto este poema depois de ter passado uma noite suja com cinco pessoas, entre copos, cigarros e acusações. Voltamos todos pra casa, imagino, e a cabeça cheia de tanto falar. Dos outros, suas histórias e a nossa como fica? Se demo-nos por tão puco, onde a gente estava que não aproveitamos nada?
Ah, e contiunua valendo o pacto de silêncio!
lorena maria

Wednesday, October 25, 2006

Algumas coisas nunca mudam

Aos 43 anos sente a gravidade pesar-lhe o rosto. "Tanta merda
tecnológica, mas nada impede ação do tempo." Olha o espelho com
saudade. Vê a olheira, roxa e levemente inchada, como a convalescência
do poder de um soco. Não se incomoda com a aparência, mas preferia
poder optar. Via atrás do reflexo memórias: aquela noite inesquecível.
Tantas outras que pareciam disperdiçadas em conversas sem propósito.
"Propósito pra quê?!" Não se arrepende de nada.

Sai do banheiro para a janela do quarto – quarto-sala, copa, cozinha e
dispensa. Olha pela janela do 158º andar. O céu é laranja e turvo.
Procura carros, mas nada vê. Era uma das poucas "maravilhas" que
esperava do mundo moderno: carros voando. É o que restou dos filmes de
ficção científica dos anos 80. "Espantoso como as coisas mudaram da lá
pra cá."

Olha na palma da mão a leve luz que azulada que indica o visor do
telefone: pensa numa, pensa noutra, mas não liga. Quer sentir o vento
no rosto, mas não há meios de abrir o vidro. Volta ao banheiro e senta
se na privada. Pensa na degradação humana enquanto escorrega as mãos
pelos dispersos cabelos da testa. "Associação." Nada lhe sai.

Sua e se arrasta sobre as pernas até a cama. Deitado, olha para a
janela e constata um céu laranja. De barriga pra cima, fecha os olhos
e consulta na pálpebra as horas.Um toque na parece aciona o aparelho.
"Hora de consumir meu passado." Um toque na parede liga o aparelho, no
teto. Chaves e Chiquinha brincam no pátio. "É, ainda bem que algumas
coisas nunca mudam."

Pedro Palazzo Luccas

Sunday, October 01, 2006

Meu voto e Kafka


Votei e agora recolho no vento as reminiscências do ato.
Lembro-me que atravessei o corredor decaído da escola olhando através das lentes dos óculos a imagem desfocada da vizinhança que deixei na adolescência. Não são somente paredes decaídas, tinturas corroídas, são também corpos, dentes, sorrisos. É o vácuo que separa o aqui-agora da imagem etérea de um passado pouco nítido. Passado reinventado ao contato com a terra do chão da escola, retrabalhado nesse momento mesmo em que busco palavras e construo imagens. Passado que me liga diretamente ao ato fugaz de acionar uma máquina, pois me provoca sensações, me leva de volta à vizinhança em que as carências e as alegrias eram irmãs. Por isso o ato banal de acionar os botões não faz sentido algum, mas me provoca, sacode a poeira que estava acumulada em algum canto da memória. O voto que a democracia brasileira me obriga a depositar em ilustres desconhecidos não significa nada para mim, mas o colégio da vizinhança da minha infância em que voto traduz o anseio e a (des)esperança de milhares de rostos, por isso o ato de votar deposita em meus ombros um peso insuportável. Não porque acredito no discurso da máquina estatal-burocrática, mas pela realidade a qual estou conectado, por toda a relação existente entre a terra vermelha na qual piso, a calçada rachada da qual brota uma erva daninha, a arquitetura da escola estadual e aquele discurso. Com todo esse peso sobre meus ombros acionei os botões e ouvi o ridículo barulho mecânico de uma fagulha que irá somar a tantas outras e que movimentará por mais dois anos (ou quatro, ou oito, ou décadas, talvez séculos) a maquinaria que reproduz tudo aquilo que não acredito, mas que de uma forma ou de outra sou fruto e que faço funcionar.

Esse pequeno texto é um pedido de desculpas à vizinhança que deixei e uma forma de aliviar o peso sobre meus ombros... ao final conecto minhas desculpas à máquina literária de Kafka [uma máquina que faz muito mais sentido, ou pelo menos seu rangido me dá certa segurança, e que ilustra muito bem toda a situação]:

Há uma lenda, que exprime muito bem essa situação: dizem que o imperador mandou uma mensagem para ti, humilde vassalo, sombra insignificante que se encolhe ao longe perante o sol imperial, exatamente a ti o imperador enviou do seu leito de morte um mensageiro. O mensageiro se ajoelhou junto à cama e o imperador segredou-lhe uma mensagem, tão importante era para ele a mensagem que mandou o mensageiro repeti-la em seu ouvido. Com um movimento de cabeça, confirmou-lhe que estava correta. Diante de todos os espectadores de sua morte - foram derrubadas todas as paredes e nas largas e altas escadarias estavam em círculo os grandes do reino - diante de todos, ele despachou o mensageiro. O mensageiro se pôs a caminho imediatamente; um homem forte e incansável, ora com um braço, ora com outro, ele abria caminho por entre a multidão; quando encontra resistência aponta para o peito, onde está o símbolo do sol; ele segue adiante como nenhum outro. Mas a multidão é tão grande; suas moradias não tem fim. Pudesse ele chegar ao campo aberto, depressa voaria, e em breve ouvirias o magnífico bater de seus punhos na tua porta. Mas ao invés disso, como é inútil o seu cansaço; ele ainda abre caminho através dos cômodos no interior do palácio, nunca mais conseguirá superá-los; e se conseguisse, de nada valeria, ele precisaria descer pelas escadarias, e se conseguisse, de nada valeria, teria ainda que atravessar os pátios, e depois dos pátios, o segundo palácio interior; e de novo escadas e pátios; e de novo um palácio; e assim durante milênios; e se ele despencasse finalmente do portão mais externo, - mas nunca, nunca isso pode acontecer - a cidade imperial estaria diante dele, o centro do mundo entulhado, cheia de seus sedimentos. Ninguém passa por aqui, muito menos com a mensagem de um homem morto. - Mas tu sentas em tua janela e sonhas com isso, quando a noite chega.

Carlos Eduardo Pinheiro

Wednesday, September 27, 2006

Índios, assim como nós



Eu não sei bem por onde começar. Eu também não sei bem o que eu esperava dessa viagem para aldeia. Talvez uma cura miraculosa. Talvez um desvio de atenção. Confesso que agora estou um pouco deformada com tanto pensamento. O encantamento tem dessas coisas. Mas vamos ao que precisa ser dito. No meio do cerrado, imerso na areia seca e entre as árvores retorcidas, moram os índios krahô. Foi lá que fomos parar, com nossos entulhos e apetrechos de sobrevivência. Uma viagem longa, cruzando o Rio Tocantins e passando pelas estradas mais precárias. Do primeiro encontro, nada muito abrupto. Eles, já bem acostumados com a presença das branquelezas, nem estranham como nós. Falam nosso português, mas entre eles só a língua mãe, o que lhes permite falar o que quiserem sem que entendamos nada. Adotaram algumas manias nossas de relógio, energia, água encanada, banda Calypso e muita roupa (o que é uma pena, porque naquele calor, tudo que eu mais queria era me desnudar).
Vivem numa situação de miséria (segundo nossa concepção), pouco plantio, muitas bocas. São reféns de um assistencialismo típico da piedade colonialista e já comungam das relações de troca dos homens “civilizados”. Isso, claro, teceu um nó gigantesco em nossa cabeça, porque queríamos de uma forma ou de outra os índios dos nossos livros. Queríamos que eles não soubessem das coisas, queríamos a ingenuidade, a vida simples, porque nutrimos uma espécie de nostalgia do primitivo (e quer primitivismo maior que a fome?). Eis, então, a primeira decepção, que veio acompanhada de um sentimento de culpa por achar que interferimos na cultura deles. Mas a interferência não acontece a todo instante? Cultura não é essa coisa louca, dinâmica e antropofágica, que deglute costumes, hábitos, idéias e vai agregando experiências? Não vou entrar nessa questão, porque só tenho formulações. Muitas coisas mudaram. Outras permanecem. Na língua, nos cantos, nos ritos, na “rotina”, no trato, nos olhares fixos com qual nos encaram ou encaram a objetiva da câmera sem pudor algum. Aliás, um olhar carregado de uma força que não se explica.
A nossa incumbência, nessa viagem, era levar os aparatos técnicos de registro e comunicação interna. Sem muita cerimônia, eles se entrosaram com aquela parafernália de máquinas e gravadores digitais e o diabo a quatro. E, de repente, surgiam filmando os rituais de cantorias, as corridas de toras, fotografando mulheres, crianças, numa atitude muito comovente, mas que contraria o nosso desejo de que eles adotem nossa mentalidade. Preocupação compreensível, porém, tardia e talvez até desnecessária, porque o processo corrosivo de dominação, que se iniciou com a invasão dessa terra e foi se disseminando Brasil afora, é irreversível. O pouco que se pode resguardar e manter vivo, já parece muito.
lorena maria

ps: foto provisória....aguardem as outras

Friday, September 22, 2006

Também tô no Youtube

Acham que é só o Aflredo, o Renatim e o Gil que aparecem no Youtube. Eu também tô no Youtube -- no bom sentido.
Aliás, conhecem a tirada do momento? Não? Ih, então "tomou no Youtube."
Chega de delongas. Tô nesse link aí embaixo. Ao lado do então governador Marconi Perillo e de um bocado de jornalistas. Atenção. O vídeo está aí para que me vejam. Mas antes que me acusem coloco um link do Maguito e o pacto com satanás

Eu e Marconi

Maguito e o capeta

Divirtam-se.

Pedro Palazzo Luccas

Mania de grandeza

Os políticos goianos sentem-se os donos do mundo. Acham que nosso
Estado -- que adoro, mas reconheço ter pouca importância no cenário nacional -- é de fato o novo eldorado. Tomara que seja. Mas, hoje, não é.
Fazia ontem matéria sobre o mapa da violência, divulgado pelo Ministério da Justiça. Ele aponto Goiás como o 4º maior em ocorrências de mortes violentas. Foram 46 assassinatos por 100 mil habitantes. O Rio lidera.

Pois bem, escrevinhei meu singelo texto e foi repercutir a informação com a Secretaria Estadual de Segurança Pública. Falo com a assessora, que desconhecia os números e acha estranho Goiás e não São Paulo estar no topo. Passo o link e peço para falar com o secretário. Quarenta minutos depois ela me retorna com um telefone e uma tese: "Isso é benéfico para a oposição, não acha?"
Respiro fundo.
Falo: "Até poderia ser. Mas, convenhamos, Goiás representa muito pouco no cenário nacional. E, não se esqueça, a pesquisa é do Ministério da Justiça com dados daí da SSP-GO.
- "É, mas o governo aqui é PSDB..." (era, agora, pelo menos em tese, é PP, penso.)
- Sim. Mas como você mesma reparou São Paulo está muito bem nessa pesquisa. Um dos menores índices. Um prato cheio para Alckmin.

Ela ainda balbucia alguma coisa que eu ignoro.
Ligo para o secretário, que mal espera eu apresentar os dados. Já fala logo da tese conspiratória. Repito meus argumentos, já sem paciência. O homem não quer papo, sugere: "Eu acho que vocês não deveriam publicar isso. Vai jogar pra cima coisa antiga que vai ser usado pela oposição" (amigo, desculpa, eu quero que oposição e governo se explodam, certo?)
Explico o valor da informação. A dificuldade de se colher dados que eles mesmo demoram a repassar e se tabular números. Ademais, 2006 nem acabou, raios!, os números seriam de quando.

O homem argumenta que não quer comentar, que assumiu em 2006 e os números ja melhoraram bastante, mas não queria criar animosidade nos grupos do governo. Mais uma sugestão: "Você pode colocar aí que eu não quis comentar. Aliás, que você não me encontrou."
-- Aí, não, secretário. Não posso sonegar a informação de que estou falando com você
-- Sou repórter. Não derrubo matérias. Se não quer falar, tudo bem. Vou continuar a escrever
-- E quem derruba. (Aqui eu já sabia que podia ir embora mais cedo)
-- Editores, editores-executivos.

Ele disse que ligaria para o diretor de redação. Aviso aos executivos, os únicos do áquario no local, que a matéria seria derrubada, mas que continuaria a fazê-la.

Três minutos depois o recado para meu editor, que intercepto: "A matéria foi derrubada por inteiro."

O dono do jornal usou os mesmos argumentos do secretário para se zangar com a reportagem. Estendo a mão a um dos meus chefes e digo: Até domingo, dia do meu plantão.

Segue abaixo a matéria censurada. Ficaria até maior. Mas, em suma, é isso.


VIOLÊNCIA
Goiás entre os líderes

Estado tem 4º maior índice proporcional de mortes violentas, com 46 ocorrências por 100 mil habitantes. Média nacional é 30.

Goiás é o quarto estado do País com maior número de crimes violentos letais, como homicídio planejado e roubo seguido de morte. São 46 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 2005 registrou-se 2.584 ocorrências, numa população de 5,6 milhões de habitantes. Rio de Janeiro lidera o ranking, com 61,5 casos por 100 mil moradores, seguido de Pernambuco (58.2) e Paraná (57.4).

A pesquisa foi divulgada pelo Secretaria Nacional de Segurança Pública com base em estatísticas das secretarias de estado e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A media nacional de 2005 é de 30 ocorrências por 100 mil habitantes. Tanto no Brasil quanto nos estados, inclusive Goiás houve ligeiro aumento na quantidade de registros (veja box) de 2004 para o ano passado.

CONTRAMÃO -- Goiás está na contramão da média nacional: em 2004 registrou-se 30.5 casos no País. No Estado aconteceram 43.1 casos catalogados pela Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP), que enviou 100% dos dados pedidos pela Senasp. Enquanto os números daqui subiram a média nacional, que já era de mais de dez casos de diferença, ficou ainda maior. Apesar disso, a unidade federativa se mantém em 4ª no ranking geral.

O líder Rio de Janeiro está a 14.5 homicídios por 100 mil moradores de distância de Goiás. O estado da região sudeste tinha em 2005, segundo dados da Pesquisa Nacional de 15 milhões de habitantes. São Paulo tem um dos menores índices, 18.9. A unidade federativa menos violenta, de acordo com os dados da pesquisa -- que so conta mortes registradas pela Polícia Civil -- é o Piauí, com 9.7 casos em 2005.

Crimes violentos letais e intencionais em 2004 (ranking de ocorrências por 100 mil habitantes)*

morte p/ 100 mil população ocorrências
1. Rio de janeiro 65.6 15.033.317 9.859
2. Pernambuco 57.7 8.238.849 4.757
3.Rondônia 46.4 1.479.940 686
4. Goiás 43.1 5.402.335 2.329
5.Espírito Santo 42.5 3.298.541 1.401

Brasil 30.5 179.108.134 54.696

Crimes violentos letais e intencionais em 2005 (ranking de ocorrências por 100 mil habitantes)*
morte p/ 100 mil população ocorrências
1. Rio de Janeiro 61.5 15.383.422 9.467
2. Pernambuco 58.2 8.413.601 4.898
3. Paraná 57.4 10.261.840 5.886
4. Goiás 46 5.619.919 2.584
5. Rondônia 42.9 1.534.584 658

Brasil 30 184.184.074 55.312

--------------

Crimes violentos não letais contra pessoas em 2004 (ranking de ocorrências por 100 mil habitantes)**

ocorrência p/ 100 mil população ocorrências
1. Acre 81.1 614.205 498
2. Amapá 73 553.100 404
3. Mato Grosso do sul 65.8 2.198.640 1.446
4. Roraima 64.7 367.701 238
5. Distrito Federal 62.2 2.233.614 1.390

9. Goiás 44.1 5.402.335 2.381

Brasil 34 179.108.134 60.931


Crimes violentos não letais contra pessoas em 2004 (ranking de ocorrências por 100 mil habitantes)**

ocorrência p/ 100 mil população ocorrências
1. Roraima 77.2 391.318 302
2. Acre 66.4 669.737 445
3. Mato Grosso do Sul 66.3 2.264.489 1.502
4. Rondônia 63.1 1.534.584 969
5. Rio Grande do Sul 61.1 10.845.002 6.629

9. Goiás 47.7 5.619.919 2.682

Brasil 34.6 184.184.074 63.565


Legenda:
* homícidio doloso, roubo seguido de morte, lesão seguida de morte e mortes a esclarecer
** Crimes violentos não letais: tentativa de homícidio, estupro, atentados violentos ao pudor e torturas


Fonte: Ministério da Justiça / Secretaria Naciona de Segurança Pública (Senasp) / Secretarias Estaduais de Segurança Pública / Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)



Pedro Palazzo Luccas