Thursday, March 01, 2007

Da arte de saber apanhar


Filme simples, com falas diretas, sem desperdícios, e silêncios profundos. Não se necessita de muita gradiloqüência para tratar de valores como honra e orgulho. Assim me vem à tela Rocky 6, exprimindo um tipo de sensibilidade rasteira e próxima às ruas - necessária para se percebercomo são sábios cães e mendigos, ou o quanto é melancólica a vida de boxeadores aposentados.

Rocky 6 retoma Rocky 1, fechando a saga de forma mais nobre e classuda. Busca-se o mesmo universo das ruas frias de Filadélfia de mais de 20 anos atrás, com seus personagens inocentes, desconfiados, e naturalmente, deslocados da rotina da cidade atual e tentando se apegar a resquícios de suas vidas.

Balboa do primeiro filme também é resgatado, mas o tom singelo e dasafiador dá lugar à sobriedade de um cara que tenta seguir em frente, mesmo atormentado pelas lembranças da mulher morta, ou pela angústia de passar o resto de sua vida contando sempre as mesmas e velhas histórias para os fregueses de seu restaurante Adrielle's. As paredes cobertas de fotos e medalhões em vez de conforto lhe dão a certeza de que ainda há demônios presos no porão.

Não se trata de um personagem mais sábio - nunca foi, e seria ridículo colocá-lo nessa posição - mas sim de um cara mais calejado, tentando buscar fagulhas e se sentir ainda vivo ao subir no ringue. Balboa posta-se no limite do risco em ser tratado com pena ou comprometer a própria vida. É esta postura frente ao fio da navalha que traz a principal mensagem do filme: de como a vida não é nada mais do que a arte de saber apanhar - não importa o quanto você consegue bater e sim oquanto você consegue apanhar e ainda seguir em frente. Lição dada em seu filho já adolescente, arrogante e temeroso de seu vexame.

Muitos gracejam sobre como as lutas são alegóricas e irreais. Mas é claro que são porra! No filme atual, o próprio aparecimento repentino de Mike Tyson contribui para elevar o nonsense do espetáculo. Compreendo, já que a maioria desses também não se deixam levar por nada, por fábula nenhuma. Nunca comprarão uma boa briga.
João Gabriel de Freitas

Saturday, February 17, 2007

Cinza



Meu nome é Roberto. Roberto Siqueira. Mas prefiro que me chamem de doutor Siqueira. Pra impor o respeito. Gosto de usar ternos baratos e mau cortados. De preferência em tons de cinza. Aquele cinza meio riscado. Não é riscado de giz, não. São aqueles risquinhos tipo de roupa de malha. Sei que é feio. Mas acho que combina com minha profissão. No meu trabalho a roupa conta muito. Tem que combinar com o que faço e com o tipo de gente com os quais eu lido.

As gravatas, por exemplo, tenho umas lisas e muitas estampadas. Praticamente todas com nó pronto. Não sou vagabundo. Nunca tive tempo para aprender a dar nós em gravatas. Além do mais, isso pra mim é coisa de fresco. Quem tem que dar nó em gravata é mulher. Como não tenho nenhuma que mora comigo, então compro as que já vem com nó pronto, de zíper. Gosto de estampas clássicas. Clássicas, assim, como aquelas da camisa do Dunga. Mas é só pra gravata, Uma camisa assim, quiçá no Havaí...

As minhas, que uso com meus ternos -- e nos dias de calor só elas com a gravata, claro que sem desabotoar o fecho dos pulsos --, são escuras. Faz jogo com meus ternos cinzas, bem sóbrios e sérios. Hoje mesmo, que tive de ir lá naquele ambiente com ar condicionado e parentes limpas, coloquei uma das minhas preferidas, azul turquesa, 75% poliéster, que deixa o corpo bem arejado. Vesti uma das minhas prediletas porque, apesar do nojo que tenho deles, preciso causar boa impressão.

Sapato e cinto sempre são da mesma cor. Se não cumprisse essa regra estaria parecido com o outro tipo de gente que se acha poderosa e eu tenho que lidar diariamente. Eles, naqueles ambientes, quentes, abafados, sujos e descascados, é que usam sapatos caramelo de bico quadrado com cinto marrom escuto ou preto. Tsc tsc. Isso quando estão de sapato. Gostam de usar blazer marrom, verde escuro ou preto e botinas, que trazem sempre surradas e muito bem lustradas.

Tenho a pele avermelhada de sol. Talvez seja o feito do tempo, da idade. Mas certeza que o fato de eu às vezes ficar em pé, no sol, contribui. Os raios vêem direto na minha cara. Ainda bem que tenho um ray ban clássico com aro dourado. Combina com meu visual e me faz sentir bem. Meu cabelo raleando e jogado pra cima, pra trás, curto e meio encaracolado. Um cu.

Fico ali parado, fumando um Plaza, esperando chegar um cliente potencial. Gosto das mães, das mulheres mais dramáticas. Aquelas que se ardem em choro. É mais fácil tirar dinheiro delas. E, geralmente, é tudo que dá pra tirar. Por isso já aviso logo. Não faço milagres. Depende do tamanho da merda que o elemento fez. E elas respondem tá, doutô Siqueira. Mas ajuda ele, tá? Eu ajudo, minha filha, eu ajudo o tanto que posso.

Na minha Consul azul sempre tem pelo menos cinco latinhas de cerveja. Bebo Brahma. Acostumei da época que ela era boa. Chego em casa, desço o zíper da gravata e tiro do meio das crostas de gelo do freezer. Tiro o sapato e as meias finas, empurro com os pés para o lado e estico as pernas na mesa. O controle remoto é meu melhor amigo. Nunca soube o porque, mas, todo dia que chego em casa a tempo, vejo o jornal nacional. Fico pragejando pro Willian Bonner e pra Fátima Bernardes. Ah, então tá tudo lindo, né, robozinho. Filhos da puta.

É também por isso que gosto do meu trabalho. Porque todo mundo no mundo é filho da puta. Todo mundo é sujo. Todo mundo merece ser roubado. Justiça divina, entende? Todo mundo faz merda na vida. Não dá pra descontar só na parcela que roda. Essa é minha função social. Faço isso pra dar direitos iguais a todos. E não gosto de ficar com a bunda gelada atrás de uma mesa de escritório. Isso facilita minha vida.

Ando por aí com meu terno cinza desabotoado, minhas camisas escuras com gravatas estampadas; de repartição em repartição atrás do dinheiro pra minhas brahmas, minhas putas e do alívio da minha consciência. Termino as noites batendo uma punheta nervosa, meio desesperada. Não sei o por que disso. Nunca quis saber. Gozo e fico olhando para o teto. Amanhã tem mais.

Pedro Palazzo Luccas

Wednesday, January 10, 2007

de perto, ninguém é...

Sentada no sofá, assistia ao jornal diário e lambiscava a sobremesa. A briga começou por causa do Nelson Rodrigues. Sem paciência para comentários inúteis, deu uma resposta grosseira à irmã que maldisse o escritor. Na verdade ele nem é, nem nunca foi seu primeiro da lista, mas havia de reconhecer sua maestria e sua sensatez. Aí é que a coisa ferveu. Insano era o que ele era!
Insano?! Sãos não somos! Cercados de exemplos e histórias absurdas, como definir quem é louco ou devasso ou insensato ou pervertido?! A negra do bêco, tem mil amantes, uma mãe que, de devota passou à doente mental, e uma filha que assiste ao seu sexo diariamente. A tia próxima, diz que tem um namorado, viajante, teve uma herdeira com outra mulher e nunca quis casá-la. A da esquina há cinco anos tem uma caso com o dono do supermecardo, casado há 30. A esposa sabe de tudo. A outra, mal enterrou o cônjuge e se deu ao desfrute. Certa ela! Melhor que a outra que se enterrou com o marido. (Aliás, ô rua pra ter viúva, viu?!).
Não quis falar do avô, porque ainda era recente. Embora todos se penalizassem com sua loucura, era de todos, o mais normal. O mais atento, o mais sereno. Tudo bem que tinha lá seus devaneios, suas crises e deficiências, mas assim não somos todos nós?! Lembrou-se também do amigo (ou talvez nem isso). Enstisteceu-se, mas não soube nem lamentar, tão precoce sua perda de sentido! Da sua loucura nunca mais tiveram notícia. Também não mencionou este.
E também não falou dos loucos de sua infância, dos pervertidos, das figuras que circulavam aquela cidade do interior, complementando o postal. Na igreja era fácil encontrá-los. Ali ninguém fala em voz alta. A senhora das bonecas, teve as filhas gêmeas assassinadas pelo avô, o rapaz gritando em francês trechos bíblicos, estudou muito e era vciado em alguma coisa, o velho sem dentes, não se lembrava, aquele com a bengala, abandono materno. Um montante de psicopatias e perveções.....
A briga silenciou para atender com urgência ao apelo televisivo: a execução de Sadam, exibida no noticiário. Desfigurado, pronunciava uma oração, quando o carrasco de súbito tirou-lhe o chão. E a vida.
O que dizer de Nelson Rodrigues? Insano está o mundo!
Lorena Maria

Wednesday, December 20, 2006

Para Lola

LITERATURA

No início os amores são Vinícius
são paixão
precipícios
são vertigem
e são vícios
são rosa da rosa
infinitos enquanto duram
enquanto dormem
enquanto duros

Maduros então
os amores são Drummond
são do mundo
do mundo mundo vasto mundo
são joão
teresa
raimundo
são pedras
são caminhos
são amados e malamados
olhos vidrados

No fim...
bem, no fim
(nota: não cheguei ao fim)
no fim acho que
os amores são Bandeira
são dores
tangos argentinos
são vida inteira
não foram
mas podia ter
sido

Vida noves fora zero?
sim! são fora e são zero
mas não! são nove e são quero

São e não são
infinito
caminho
zero

João Gabriel de Freitas

Sunday, December 17, 2006

Reflexão de domingo à tarde

Há muitas maneiras de fundamentar a igualdade dos homens, uma delas é: somos iguais em angústias, incertezas, instabilidade recorrente e ameaçadora. Somos animais pensantes que se diferenciam por pequenas sutilezas, meros detalhes que nunca são suficientes para contrariar a distribuição comum dos afetos e sentidos, das vontades, de consciência e inconsciência.

Não há novidade alguma nisso. Homens e mulheres, percebam ou não, experimentam a vida como um desafio, um projeto não requerido. Talvez um presente de um deus misterioso (e, caso ele exista, genial em sua indiscrição). Talvez um fardo para a realização de uma sentença, sem que esses animais pensantes tenham acesso ao seu próprio julgamento. Que fazem eles?

Uma possibilidade é recuar e preferir a inconstante plenitude do auto-controle, a submissão a uma mente organizadora dos fatos e dos desejos. Não que seja, invariavelmente, menos doloroso viver assim. Mas essa é a intenção honesta e declarada desse caminho: o desafio deve ser quase indolor, a sofreguidão do homem deve ser dissimulada. O movimento do mar, por maior que seja o oceano, não é o da tempestade, mas o de uma fresca manhã que traz as ondas, calmamente, ao encontro de pés descalços.

É possível, também, irritar-se com o desafio, transformando-se em um diabo traiçoeiro, um anti-herói da existência. Assim, cuspir fogo bruto contra os bons costumes, agredir a lealdade e assumir todos os vícios. O homem vivo se enterra e se move, rastejante, por baixo dos pés alheios, pronto para elevar-se e transgredir novamente a lei, sedento por derrubar os ídolos que abandonou em sua inebriante empreitada. Não se incomoda com a morte ou a má consciência. Em forma de tempestade, o desafio é honrado à altura, e a água salgada transborda, invadindo pulmões, ignorando prudência.

Mas há, ainda, uma terceira via. Nela, os homens visitam uma montanha que está sempre longe, um pouco acima do mar. Do alto, contemplam e riem, estupefatos, brincando maravilhosamente com toda a seriedade do mundo. Riem e se surpreendem, todas as manhãs, todas as tardes e noites, observando mais de perto os humores do sol e da lua, da secura do clima quente e da chuva rala, ora atacando, ora reconfortando a própria pele. Por curioso que seja, procuram ao mesmo tempo o auto-controle e o diabo traiçoeiro dentro de si. Equilibram-se, pois abandonam facilmente os próprios desejos, e valorizam com uma estranha ternura a falta de sentido do mundo.

A altura da montanha não é um divisor de mundos ou verdades, e, certamente, menos ainda de homens (iguais em angústias, incertezas, instabilidade recorrente e ameaçadora). É um lugar que eles procuram. Lá, não estão preocupados com muita coisa: apenas riem. Muitas vezes fatigados, é verdade, mas, acima de tudo, incomparavelmente satisfeitos com a beleza de tudo.


Rodrigo Cássio

Monday, December 04, 2006

Mal há bares em que vivo

Trago a vida em minhas mãos,
Malabares de vidro.
Mas quando me canso
Estes cristais
Mastigo.
E cuspo os cacos
Sangrando a vida
No que digo



Wertem Nunes Faleiro

Sunday, December 03, 2006

Um filme sobre o cuidado – Almodóvar e o universo feminino


O cuidar de si e o cuidar do outro são atos que se confundem quando a proximidade das pessoas as unifica, as transforma em uma relação, uma identidade firmada no mundo que compartilham e constroem. O novo filme de Pedro Almodóvar, Volver, explora o sentido desse “cuidado” no universo feminino, tema ao qual o diretor espanhol retorna belamente após o polêmico “Má Educação”, de 2004.

Volver é um filme repleto de personagens femininas. Raimunda, interpretada por Penélope Cruz, desdobra-se em empregos diferentes para cuidar do lar, da filha, a adolescente Paula, e ainda fazer-se presente na vida de sua tia Paula, idosa e com a saúde debilitada. Essa última tarefa Penélope divide com a irmã, a solitária Sole, proprietária de um salão de beleza ilegal.

Raimunda, ao contrário do que pode parecer, não é uma mulher solteira. Seu marido, Paco, é um companheiro e pai ausente que não resiste à fuga rápida pelo prazer, o álcool e o sexo, negligenciando a urgência de consolidar-se em um emprego e participar da vida familiar. O assassinato de Paco e a aparição do fantasma de Irene, mãe de Sole e Raimunda, morta cinco anos antes, compõem o mote de Volver.

As três gerações de mulheres que Almodóvar nos apresenta estão vinculadas não apenas pelo sangue familiar, mas pelos dilemas semelhantes, os desafios que o enfrentamento da realidade proporciona a cada uma delas. Raimunda reflete em sua conduta, de uma só vez, a tradição ocidental que fez do “cuidado” um atributo especialmente feminino, e a astúcia contemporânea da mulher que não se intimida diante do mundo, ampliando o significado do “cuidar” para além do “amparar”, e assumindo, assim, o “proteger” – mesmo que isso lhe custe abrir mão de sua vida pessoal.

A idéia de proteção está fartamente presente no filme. A volta de Irene ao mundo dos vivos ocorre em nome do bem-estar de tia Paula, culminando no reencontro com as filhas, também motivado pelo sentimento de identificação e unidade essencial (tão feminino quanto familiar) que sequer a morte poderia dissolver. A cena em que Irene, Paula, Sole e Raimunda viajam no mesmo carro, retornando à aldeia onde estão suas raízes, nos remete à viagem interior irrecusável que as torna iguais, em sensibilidade e em coragem.

Os homens são dispensáveis no universo de Volver. Almodóvar enfatiza as seqüências em que suas mulheres se esforçam fisicamente, seja arrumando engradados de bebidas ou unindo forças para deslocar um pesado freezer (a união delas, por razões diversas, é uma constante). Mais que dispensáveis, os homens são seres absolutamente estranhos aos dilemas enfrentados pelo sexo oposto. Apagados, são coadjuvantes de um mundo que não conseguem absorver por não sustentarem a mesma mistura de sensibilidade e força, de tradição e personalidade crítica diante do novo.

Mas Almodóvar não fundamenta seu filme em um discurso feminista radical, e aí está a grandeza de Volver. O aparente desmerecimento do homem é, na verdade, uma afirmação da mulher, uma apologia das possibilidades de realização da vida que a cultura ocasionou a elas, de uma forma especial (o que não quer dizer que todas as mulheres se dão conta dessas possibilidades). Ainda que dispensáveis, os homens possuem o seu lugar, deixando uma lacuna evidente à medida que o abandonam. E se o abandonam, é por não encontrarem a importância do “cuidado”, a dimensão feminina que ignoram em seu ser, condenando-se à incompletude.

Volver é uma obra que exemplifica fielmente o que é Almodóvar. A capacidade do diretor de manipular sentimentos e de compreender tópicos fundamentais da vida de hoje, cinematograficamente, estão presentes da primeira à última cena, transformando-o em um filme indispensável para os que admiram ou pretendem conhecer o diretor espanhol em sua melhor forma.


Rodrigo Cássio

Friday, December 01, 2006

Lanny Gordin - Psicodelia e transgressão made in Brazil


Quando se fala em tropicalismo vêm à mente as figuras de Caetano Veloso e Gilberto Gil, talvez Os Mutantes e [agora mais do que nunca] de Tom Zé. Raramente Jards Macalé, Rogério Duprat ou Lanny Gordin. O movimento tropicalista, no seu período áureo, de 1967 a pelo menos 1972, pautou-se, principalmente, pela experimentação através da sinergia de artistas de diversas áreas. Esquecer que o tropicalismo foi um movimento coletivo é compactuar com a idolatria do mainstream brasileiro - e o que foi a década de 1970 senão o decênio de ascensão dos grandes ídolos da MPB?

Relembrar o nome de Lanny Gordin é não só uma atitude anti-stabilishment como a reparação de uma injustiça. Uma das forças motrizes do tropicalismo, Lanny, participou dos principais [e melhores] discos daquele movimento. Sua guitarra transgrediu os limites impostos pelo padrão de música popular praticado até então ao fundir jazz e psicodelia de uma forma talvez nunca experimentada antes por estas terras. Solos siderais, distorções lancinantes, ambientações lisérgicas e dispersão do Ego eram [e são] alguns dos efeitos característicos criados pelo guitarrista (...).

1969 é uma data marcante para o tropicalismo, não só por ser o ano do exílio dos "cabeças" do movimento, quanto pela psicodelia incontida presente nos discos de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa daquele ano. Transgressão e psicodelia obtida pela sinergia das cabeças mais progressistas no campo da música popular no Brasil daquele momento. Poesia, política, lisergia, performance, marketing, música, teatro, cinema e artes plásticas. Estilhaços de uma bomba que explodiu no centro da cultura urbana brasileira. Resgatar o nome de Lanny Gordin é agir contra a centralização da cultura no Brasil, já que faz emergir das sombras diversos pontos de fuga e desdobramentos que a "história oficial" encobriu em nome de uma idolatria centralizadora.

A guitarra de Lanny muito mais que mero acompanhamento é uma voz que grita do fundo dos porões do inconsciente. Loucura e arte, sexualidade e violência. Transgressão. Forças que atravessam as músicas desintegrando-as. Levando-as ao limite. Fundindo todos os elementos num só, dando coerência ao mesmo tempo em que estilhaça qualquer tentativa discursiva totalizadora. Por agir como elemento dissonante e fragmentador da música, a guitarra de Lanny Gordin não pode ser encerrada em um modelo unidimensional. Sua música extravasa os limites e percorre diversas dimensões pouco experimentadas. É por isso que o resgate de seu nome [e de sua música] age como força reativa à centralização do stabelishment, age como um sopro de vida vindo das veredas mais obscuras da história contra a soberania de ídolos de mármore. Resgatá-lo é reafirmar o tropicalismo como um movimento coletivo transgressor, que batia de frente com certa forma de produção cultural reinante até então no Brasil, e, muito mais que isso, é lançar sobre a memória uma luz que, ao iluminar certos pontos obscuros da cultura brasileira, abre infinitas possibilidades.

Eduardo Pinheiro

Wednesday, November 29, 2006

Raicai Drinks


Mando aí alguns raicais com temáticas de butecos. A idéia tá aberta pra quem também se sentir inspirado por esse ambiente.




Encruzilhada.
Naipe de coração
na carta errada


Fumaça do primeiro trago,
desejos
que não falo


Torresmo.
O filé aos cães
a gordura ao beiço


Dose.
Mais uma
e serão doze


Bituca.
A alma é grande,
a vida é curta


Conversa de bar.
Só não escuto
a patroa chamar


Minha flor de lapela,
ao final da noite
nem mais uma pétala


Meu olho já envenenado - sinto muito!
Guarde seus beijos
no guardanapo

Canções de
embriaguez:
Todo mundo tem sua vez!

Nas mesas,
Serve-se de bebida
à boa vida

Espuma enfeita o copo
Bebo gelado
seu corpo

Entre o sal e
o paliteiro
Ficam presos os desejos



João Gabriel de Freitas

Tuesday, November 28, 2006

Amor de criança

A semelhança das duas, denunciava o parentesco. A mais velha parecia ter 15 anos. Sentou-se no ônibus, com a bebê no colo, naqueles bancos em que ficamos de costas para o movimento natural, assentos que na maioria das vezes são evitados por tonteira ou superstição, mas aquela menina não se importava. Encostou a testa no vidro e olhou pela janela embaçada, como se estivesse mais interessada no passado, ou ainda, como se estivesse de costas para o futuro ou andando mesmo, de ré.
Junto a seus pés ficava uma mala velha, como se fosse um cão velho, cheia de panos de prato ordinários, que logo foi chutada sem querer, ou por ignorância mesmo, por um homem gordo de rosto quadrado. Assim ela despertou e viu que a pequena se lambuzava toda com um pirulito barato comprado no terminal. Era como se ela brincasse de boneca com a pequena no colo. O cuidado de uma pela outra parecia uma brincadeira de irmã até que ouvi; “não minha filha, deixa mamãe cuidar disso”.

Wertem Nunes

A urucubaca vingou


Depois de ler esse tão sincero desabafo, sobre jovens garotos inconseqüentes e uma revista eletrônica, não posso mais guardar o que sei. Para todo mal existe uma culpa, que é a maneira de consolar e explicar quando algo não dá certo.
Quando tudo começou, as tais reuniões secretas, os esboços, o falatório, eles se esqueceram de um detalhe. Um detalhe besta, banal, sem importância. Um detalhe, pois, que lhes traria a ruína. Não por maldade ou por machismo ou por ignorância, mas porque homem não é detalhista. E a sensibilidade deles é outra. Claro que formar um clube de escritores é o sonho de todo rapaz jornalista e só essa vontade moveria (como moveu) muitas palhas. Mas, de repente, não mais de repente, o quesito faltante começou a pesar.
Primeiro porque elas, mais do que ninguém, sabem cobrar, gostam de hora marcada e tudo, e talvez isso agilizaria o processo. Depois porque clamam por atenção, por se sentirem parte ativa (e não meras colaboradoras) da idéia. Casos não se sintam assim, partem para a vingança (lembram do vudu do Cheiro do Ralo? Então.) Sem contar que elas possuem o charme intrínseco à voz e aos gestos que é capaz de convencer qualquer dono de supermercado a patrocinar uma página na internet. E por fim, porque o que seria dos escritores sem suas musas inspiradoras????
Gente, sem querer entrar na intimidade de ninguém ou revelar os surtos de solidão que ora pairam sobre vocês, o que falta (e faltou) ao projeto SÃO MULHERES!
Lorena Maria (a única e abusada criatura do sexo feminino que enfia suas coisas nesse espaço aqui)

Joselitismo:o mal do século


(sobre a experiência surreal com Bnegão)

Cedo, vou atrás dos caras. Bernardo, o Bnegão e Fábio, o produtor. Meio traumatizada com esse negócio de acordar as pessoas nos hotéis, peço que interfonem no quarto. Em pouco tempo descem os dois. Me vem a memória a fala de um amigo “ você sabe como são esses maconheiros. Vão atrasar”. E quase inconscientemente fixo no olho do negão. Não dá pra ver muita coisa por causa dos óculos retrô que ele usa. Realmente é bem largão, e as mãos são bem gordinhas. A indumentária é simples, mas o balanço quando caminha é muito próprio. Tento disfarçar a incontrolável sensação que é estar tão próxima a um artista que você curte. Fica de boa. Boca fechada. Aproximo do produtor que é mais franzino e parece menos ofensivo. O silêncio não é o meu forte e por sorte também não é o deles. Vamos falando sobre o show de Brasília, o festival daqui, ele pede para sintonizar na rádio que tocava ô simpático, funk do filme Quase dois irmãos que eu assisti umas vinte vezes, solta uns comentários bem humorados e o clima vai ficando ameno.
O programa é muito sério para uma ocasião dessas. Não supera muito minhas expectativas (mesmo porque elas são sempre maiores), mas penso que já valeu. Fico tentando decodificar as falas sobre música independente, a história da Dança do patinho, sua profecia de que a humanidade está sofrendo da doença da joselitagem, um non sense coletivo, suas piadinhas sobre músicos top top, os palavrões, as gírias. Percebo um enorme esforço dele para organizar o raciocínio, conter a onda que é intrínseca à sua pessoa. No ar, reclama que seu estômago está roncando. Parece à vontade.
Da ilha recebo um telefonema do diretor da TV(que é fã do cara) convidando para um almoço. Como ele fala muito rápido, empolgado, não entendo se ele quer fazer uma graça ou se é só para forçar amizade mesmo. Presumo que sejam as duas coisas. Por desencargo de consciência, dou um toque no produtor, “é, o cara chamou vocês para almoçar numa churrascaria aqui perto, mas sei que vocês têm que voltar para o hotel”. “Mas é patrocinado? Porque acho melhor almoçarmos por aqui”. Assumo que não entendi se ele iria bancar. Deixamos de lado a idéia, só que na espera pelo carro, a conversa foi ficando boa, pedindo uma cerveja e acabo voltando ao lance do almoço. Para nossa alegria, descubro que o “chefe” queria pagar a farra pra todo mundo. Fomos.
Bnegão começa a história do show que fez com Tony Allen, do lance de tocarem juntos. Ele realmente fala muita gíria, mas engraçado que não é chato. Falou bastante muito. Descobri que, como eu, ele não é bom com endereços e por falar nisso, nos perdemos e daí começo a me arrepender em levar os dois para esse almoço. O “chefe” do outro lado parece alto e quando nos vê chegando, começa o escândalo. “ Aaaaarh, porra, como vocês não me viram. E aí Bnegão?! Aaaaaarrhhh! Vamo descer. Como vai essa força, BÊ? Arhhhhhhh”. BÊ???? Me arrependo. O cara estava completamente embebido no álcool, de boca mole e frases dissolvidas como bem disse o Bnegão. Falava desconexamente, sobre um tal programa “bem Goiás” e da sua viagem ao Rio, e da sua história musical e disso e daquilo. De repente, implicou com o fato do ídolo não comer carne e não tomar cerveja. Vemos ali, personificada, a profecia de Bnegão.
Ele e seu fiel escudeiro ( que a essa altura já havia recebido o codinome de Fabão) se acabavam de rir, enquanto eu e uma amiga nos divertíamos com aquela situação hilária: um almoço, num muquifo, em companhia de um figurão encachaçado e os dois visitantes ilustres. Antes que a coisa piorasse, pedi um carro para nos levar ao hotel. Por fim, numa esquina do centrão de Goiânia, depois de um abraço demorado e sincero de despedida, pude perceber que tínhamos proporcionado aos caras uma fuga da rotina, um momento original que já vai virar história entre as outras do Bnegão. Tomara.
lorena maria