
João Gabriel de Freitas
Produção coletiva, entrelaçada, vírgulas duvidosas, gramáticas da vida, contos, crônicas e até jornalismo...
Uma das faces mais surpreendentes da sociedade da informação é o poder da mídia de determinar os pensamentos, sentimentos e valores que tornam possível a convivência organizada das pessoas em um grande grupo. A imprensa preenche com incomparável sucesso e facilidade essa dimensão superior, responsável por renovar constantemente a percepção que cada um tem de si mesmo como integrante de algo maior. Há pouco mais de um século, essa dimensão superior, universal, onipresente e poderosa, ainda se erigia em nome de um Deus modelar e unificador. Na era em que a “morte de Deus” é algo consumado, garantir a auto-coerção dos homens exige o fortalecimento e enobrecimento das instituições, que passam a oferecer à humanidade a impressão ingênua de que cada um, enquanto homem livre e universal – tal como era o Deus morto – assumiu plenamente o controle da sociedade.
A onipresença da informação ocorre por via direta (dos meios de comunicação para indivíduo) ou indireta (dos meios de comunicação para um indivíduo e dele para outro indivíduo, infinitas vezes), abarcando todos os pensamentos e ações possíveis. Para os que ainda se entusiasmam, é indiferente a existência de homens no começo e no fim do processo; a “reciprocidade”, o feedback, a “resposta” está pré-determinada; o movimento é sempre um movimento de retorno, do mesmo ao mesmo. Sem Deus, é o homem que está em todos os lugares, no começo e no fim do processo, e também no meio – ou nos “meios”; os homens são esses meios, é isso que Zodíaco deixa à mostra em seus momentos mais breves, exatamente os únicos que devem ser lembrados depois de uma narrativa dispendiosa que envolve o espectador, sorrateiramente, com o mesmo excesso de informações que fundamenta a trama.
Nesse passo, o desafio impossível que pode ultrajar o espectador – em sua “dignidade de homem livre”, que se diga – é comunicar-se ou agir de tal maneira que não exista qualquer elemento inspirador aproveitando-se da sua fala e do seu ato, sempre a serviço da manutenção premeditada do todo. O revolucionário venezuelano está no mesmo patamar do soldado norte-americano. É o homem que dá a si mesmo a sua violência, como o cerne da notícia policial ou a preocupação que sustenta a própria polícia; é o homem que perpetua o movimento e exige uma incompreensível justiça. Qual justiça? A única que Zodíaco oferece é o distanciamento, a fuga, o medo contido de Melaine (Chloë Sevigny) que, apesar dele, mantém o olhar ríspido e pontual, exigindo do marido o compromisso nunca verbalizado de uma boa vida moderna, o way of life, a satisfação graciosa de quem se esconde por trás dos óculos nerd e da admiração correta pelos mais fracos.
Nada diferente da mulher que se lança do carro com o filho nos braços. Nada diferente do possível assassino que se diverte, ao mesmo tempo, com revistas pornográficas e com os jornais nos quais publica seus crimes; são mulheres nuas e notícias gravíssimas, sexo explícito e cartoons pouco talentosos, ou, alternando os objetos para as vidas, policiais dedicados e esquilos esquisitos – falsas dicotomias que se ampliavam e solidificavam nos anos dourados que Zodíaco pretende representar, com tanto sucesso quanto possível para ser um ótimo argumento ideológico contra Clube da Luta. Se há algo que chama a atenção no novo filme de David Fincher, além disso, é que ele não precisava de mais do que a metade da sua duração, poupando o espectador de todo o levante heróico de Graysmith (Jake Gyllenhaal).
O zodíaco, não há dúvidas, ele não existe. Ele é o sucesso, a obediência à ordem; mais que isso, é o sucesso do modelo de trangressão que a ordem carrega em seu seio, o sucesso da própria ordem. Ele é o entusiasmo que ilumina os voluntários sem nome quando se entregam, no auge das investigações policiais, ou a empolgação efêmera que domina qualquer um dos espectadores, ocultos pela penumbra da projeção e esgotados com as possibilidades do mundo que, movimentando-se, se reinventa.
Rodrigo Cássio
* Texto em homenagem a Jean-François Lyotard
O hype agora é o passado. Nunca esteve tão em alta o culto aos grupos/movimentos/sonoridades de certo passado recente (principalmente, a "era de ouro" da música pop - décadas de 60 e 70 e adjacências). Com a internet, a música pop, que sempre viveu de retroalimentação, agora, mais do que nunca, é cíclica - vive de fases; entre a busca de referências em décadas anteriores e esparsos [e cada vez mais raros] saltos de inovação.
Para constatar isso é simples; basta uma rápida zapeada pela Mtv, ou mesmo cinco minutos de audição da rádio mais “moderninha” da cidade. Pronto: sacou que as bandinhas mais in estão reciclando os anos 80? E os dinossauros que vivem de um passado glorioso? Talvez tenham ouvido uma voz feminina com trejeitos de black music dos anos 60/70, não?! Algo como a nova "Aretha Franklin branca". Uau! Ainda, basta uma rápida passada pelos lançamentos do último trimeste que salta aos ouvidos três pérolas dessa retro-reciclagem-remix-cool dos anos 00; o cd Back to Black de Amy Winehouse, o mais novo da queridinha Joss Stone, Introducing Joss Stone, e, para misturarmos Jesus com Genésio, Momento de Bebel Gilberto.
O primeiro, da polêmica Amy Winehouse, impõe sua potência. Voz poderosa, letras ácidas e um groove cortante, estilhaçam qualquer tentativa de desqualificá-la por suas constantes aparições
Joss Stone é um caso sério. A bonitinha causou furor com sua aparição repentina há alguns anos, sendo comparada com as grandes divas do soul e r&b, e tudo o mais. Nada mal para uma garota na época com 16 anos. Entretanto, esse novo disco, Introducing Joss Stone, é, com a desculpa do [mais um!] lugar comum, sem sal. Ao que parece, Joss Stone, ou seus produtores (sabe-se lá), tinha a intenção de sair das comparações e se mostrar com uma personalidade vocal/sonora própria. Conseguiu o efeito oposto, penso. A participação de Lauryn Hill é o ponto alto do disco, mas a garota não consegue segurar a onda sozinha; perde-se entre a tentativa de se mostrar diferente e manter as vendagens anteriores. Parece-me que essa tentativa de equilíbrio deixou sua música sem personalidade - as rádios adorarão.
Bebel Gilberto, mais afeita a Nova York à Londres, produz um disco que destoa das duas artistas citadas. Primeiro, por que o universo bretão é processado de uma forma diferente; já que não é inglesa ou norte-americana, mas brasileira. Depois, por que suas referências são outras. Referências à música negra aqui são, se as têm, indiretas; o passado vem em forma de bossa nova e, todos sabem, bossa nova é um samba “higienizado”. A bossa nova-lounge de Bebel, nesse disco, continua cool, mas não deixa de ter suas afetações. Quem espera por algo novo pode se decepcionar, mas isso não quer dizer que o cd é ruim. Pelo contrário, o ambiente eletrônico e a batida bossa nova harmonizam-se bem, as letras e a voz da cantora fecham bem o clima fim-de-tarde que Bebel deseja. Às vezes, parece estar um pouco distante do universo musical nativo atual (que nem a presença da boa composição, Tranquilo, de Kassin, com participação da Orquestra Imperial, consegue mudar), mas talvez seja essa condição de desenraizamento (sua música não pertence nem a Nova York nem ao Brasil) que fazem seu "passadismo" soar mais como uma reverência do que como mero oportunismo.
Se Amy Winehouse consegue emular o soul dos anos 60/70 de um modo autêntico; Joss Stone prefere afastar-se dele camuflando-se de moderninha, caindo, assim, na armadilha do estabelishment do R&B/Hip Hop/ Pop atual. Já Bebel Gilberto, antípoda latino-americana das inglesas, consegue trazer com dignidade o passado para sua música, com o perigo de afogar-se em clichês, é certo, mas dando um leve sopro de renovação.
O "passadismo" atual é sintomático de uma era de excesso[s] de [da] informação. Talvez seja cedo demais para afirmar qualquer coisa sobre os efeitos da internet na música pop[ular], mas com certeza podemos dizer que ela alarga as referências em detrimento do estreitamento das distâncias das diferentes “aldeias” musicais; produzindo, por um lado, fluxos de aparente falta de criatividade – favorecendo remixes e releituras –; por outro lado, favorecendo o trânsito de informações musicais, a enriquecer assim a biodiversidade musical. Os três casos acima citados expressam ora uma, ora outra tendência; a história da música pop[ular], desterritorializa-se no ambiente veloz e plural da internet, tornando-se dócil ao toque daqueles que a souberem manipular... e o futuro a esses pertence.
por Carlos Eduardo Pinheiro